A «Comissão Regional do Doente Crítico» (CRDC) foi criada a 22 de Agosto de 2008, por deliberação do Conselho Directivo da Administração Regional de Saúde do Norte, IP(ARSN).
De acordo com as recomendações aprovadas pela Ordem dos Médicos e publicadas no livro «Normas de Boa Prática em Trauma» em 2007, deveria ser constituída uma Comissão Regional de Trauma, sob a responsabilidade da ARS da região.
No entanto, foi considerado que o doente traumatizado grave não era mais do que um ‘doente crítico’, e a sua abordagem era, em muitos aspectos, estruturada seguindo os mesmos princípios. Para além disso, a organização, sistematização e estruturação da abordagem do doente traumatizado não deveria ser apartada, genericamente, da organização, sistematização e estruturação de outros doentes graves (‘críticos’) do foro não traumático, sob pena de se duplicarem esforços, criar iniquidades e debilitar a coordenação das acções.
Assim, com esta iniciativa, a ARSN pretendeu constituir uma comissão de peritos que a pudesse assessorar em toda a área da abordagem do doente crítico, de forma global, em termos de planeamento de estruturas, recursos humanos, organização e objectivos a atingir.
Nesse sentido foram convidados elementos que na região norte possuíam uma experiência alargada neste contexto, credibilidade interpares e competências complementares, para que de uma forma sinérgica pudessem trazer valor acrescentado à discussão (médicos,enfermeiros, técnicos de ambulância e administradores hospitalares, especialistas em adultos e em pediatria e que trabalhassem em hospitais do litoral e do interior, instituições do ensino superior das ciências da saúde e INEM).
Em função do profundo conhecimento que os elementos da CRDC possuíam das características da região, a ARSN nunca impôs visões, constrangimentos ou condicionalismos que afectassem a definição da sua estratégia técnica. Deste modo, a escolha dos temas a tratar,a sua prioridade e a forma de o efectuar foram da inteira responsabilidade da Comissão,mas deve-se sublinhar o perfeito alinhamento de posições que sempre existiu entre a CRDC e o Conselho Directivo (CD) da ARSN: só desta forma se podiam conseguir atingir os objectivospretendidos.
A única questão que foi definida à partida pelo CD da ARSN relacionava-se com a metodologia de implementação dos projectos: as propostas deveriam ser submetidas a uma ampla discussão técnico-científica dentro do grupo; a versão final teria de ser aberta à discussão pública (sendo enviada, pelo menos, à Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros, Direcção-Geral da Saúde, Alto Comissariado da Saúde, ACSS, Hospitais e Agrupamentos de Centros de Saúde); a CRDC incorporaria as sugestões consideradas pertinentes e submeteria a proposta final à aprovação do CD da ARSN; após a decisão, competiria igualmente ao CD da ARSN, com o apoio da CRDC, reunir com os principais interlocutores para definir a forma, as acções, os responsáveis e o cronograma para a sua implementação.
Para além de toda a discussão que este formato originou, conseguindo sensibilizar os
principais interessados numa reflexão profunda sobre os principais temas no atendimento do doente urgente/emergente, o objectivo pretendido sempre foi muito pragmático: as propostas,depois de aprovadas, não deveriam constituir apenas excelentes documentos académicos,mas teriam de ser implementados e colocados ao serviço dos doentes em tempo útil,de forma a serem conseguidos ganhos efectivos em saúde. Apenas em 12 meses de trabalho, a CRDC produziu uma quantidade relevante de documentos,reconhecidos por todos como de excelência e que irão permitir moldar o presente e o futuro das decisões no que concerne ao planeamento da urgência/emergência na região norte. Destes destacam-se:
1. Recomendações sobre «Competências e Formação em Urgência e Emergência» e sobre «Material e Equipamento» – aprovadas em reunião do CD da ARSN em 16.03.2009.
Numa fase de criação de uma nova tipologia de pontos da rede da urgência/emergência (Serviços de Urgência Básicos), nomeadamente em estruturas dos cuidados de saúde primários, tornava-se imprescindível definir e estandardizar os meios e os recursos, de forma a que estes serviços pudessem responder ao solicitado e se integrassem de forma efectiva na rede. Não se pretendia apenas alterar a designação dos locais: pretendia-se a realmudança da organização e do seu funcionamento, de modo a permitir o trabalho seguro e com qualidade dos profissionais e os benefícios aos utentes que lá ocorressem.
De realçar o enorme esforço de formação que foi necessário realizar, de modo a montar uma logística capaz de dar resposta às necessidades evidenciadas, o que permitiu a formação,num tempo reduzido, de mais de 750 elementos, em cursos essencialmente teórico--práticos, com a ampla participação de entidades externas acreditadas.
2. Recomendações sobre «Via Verde da Sépsis» – aprovadas em reunião do CD da
ARSN em 08.06.2009.
A criação, de forma pioneira em Portugal, de uma via estruturada para o atendimento e seguimento de doentes com sépsis, só foi possível fruto de uma estratégia que incluiu um planeamento rigoroso das várias medidas necessárias e a prossecução de um calendário previamente definido, o que irá permitir que até final do ano de 2009, oito unidades hospitalares têm criado a Via Verde da Sépsis, e possamos consolidar as bases para que em 2010 todos os pontos da rede da urgência/emergência da região norte estejam interligados e comunguem nesta filosofia de abordagem do doente com sépsis.
Neste contexto, merece um agradecimento especial o Doutor José Artur Paiva e o Grupo da Sépsis do Hospital de S. João (pelo enorme esforço de formação), os Conselhos de Administração dos Hospitais e os profissionais de saúde de cada uma das instituições, pela abertura e motivação na sua implementação.
3. Recomendações sobre «Carro de Emergência» – aprovadas em reunião do CD da ARSN em 23.07.2009.
Estas recomendações, que partiram de um documento original do Agrupamento de Centros de Saúde do Nordeste, espera-se que tragam um contributo adicional para a melhoria na prestação da assistência, nomeadamente em contextos de cuidados de saúde primários em que não existia uma forte formação nesta área.
4. Recomendações sobre «Transporte Inter-Hospitalar (Secundário) do Doente
Crítico Urgente» – remetidas pelo CD da ARSN ao Gabinete do Senhor Secretário deEstado da Saúde em 07.09.2009.
Apesar do Conselho Directivo da ARSN concordar com as propostas apresentadas, pelo facto das acções que são elencadas serem da responsabilidade de instituições, sobre as quais a ARSN não possui tutela directa ou indirecta, foram remetidas superiormente para avaliação e emissão de orientações, antes do documento ser aberto à discussão pública.
5. Recomendações sobre «Via Verde do Trauma» – remetida pelo CD da ARSN às
várias instituições em 08.06.2009.
Em fase de discussão pública, aguarda apenas o parecer da Competência em Emergência Médica da Ordem dos Médicos, antes da CRDC elaborar a proposta final a submeter ao CD da ARSN.
6. Recomendações sobre «Integração das Equipas de Emergência Médica Pré-Hospitalar nos Serviços de Urgência» – remetido pela CRDC ao CD da ARSN em Outubro de 2009, irá ser submetido à discussão pública.
Esta área é das mais importantes em termos de planeamento regional na organização dos serviços de urgência/emergência, pelo que o documento final que resultar da discussão pública é aguardado com muito interesse pelo CD da ARSN.
7. Outras Recomendações
Durante estes 12 meses de funcionamento da CRDC, muitas outras questões acabaram por ser avaliadas nomeadamente o desenvolvimento e consolidação da ‘Via Verde do AVC’ em termos globais e no aspecto do tratamento intra-arterial. Esta área tornou-se um exce-lente ‘case-study’: uma política concertada, uma estratégia claramente definida, um conjunto de medidas implementadas e coordenadas, aliadas a um acompanhamento e monitorização contínua do processo, permitiu atingir os resultados que se apresentam no final deste documento.
No entanto, mais do que os temas ou as soluções propostas pela CRDC, o CD da ARSN gostaria de realçar a filosofia do trabalho, a Visão dos peritos, a definição estratégica e o envolvimento dos Conselhos de Administração e dos profissionais de saúde em todas as discussões públicas efectuadas, e dos quais este livro que agora se publica é disso uma prova viva. Nesse sentido gostaríamos de agradecer de forma profunda aos peritos que constituíram a Comissão Regional do Doente Crítico, que ao longo destes doze meses, demonstrando as competências técnico-científicas que lhes eram reconhecidas, trabalharam de uma forma empenhada, com dedicação e elevada motivação, constituindo o resultado final do seu trabalho um motivo de orgulho para esta ARS e para a saúde da região norte.
Por último, uma palavra especial para o Coordenador da CRDC, o Dr. Miguel Soares de Oliveira, que possuindo uma visão clara, uma determinação sólida e um espírito de liderança ímpar, foi essencial para o êxito desta Missão.
O Conselho Directivo da Administração
Regional de Saúde do Norte, IP
Outubro de 2009